O Japão da segunda metade do século XIX foi um país de dramáticas transformações. Durante dois séculos e meio o Japão esteve isolado do resto do mundo, sob o controle político
dos xoguns da família Tokugawa. A sociedade japonesa era feudal e a economia estava estagnada num sistema agrário e dependente da cultura do arroz, enquanto as potências ocidentais, industrializadas e tecnologicamente avançadas, conquistavam colônias na África e Ásia. A partir de 1854, com navios americanos e ingleses exigindo com uso de canhões a abertura dos portos japoneses, o enfraquecido governo xogunal teve que ceder crescentes privilégios comerciais aos estrangeiros, o que gerou uma crise interna sem precedentes. Revoltas levaram a uma guerra civil, que culminou em 1868 com a vitória dos que queriam a restauração do poder ao imperador, e que defendiam a modernização rápida do Japão em moldes ocidentais. Era o início da Era Meiji (1868-1912).
Em 20 anos, a modernização Meiji revolucionou o país, propiciando oportunidades para a aristocracia, que ocupou importantes cargos na nova estrutura político-governamental e para uma emergente burguesia que enriqueceu com os métodos industriais e financeiros importados do ocidente. Mas os benefícios do enriquecimento do país ficaram nas mãos de poucos, e fazer rapidamente do Japão uma potência bélica do mesmo nível que as potências ocidentais foi mais prioritário que necessidades sociais. A maior parte da população vivia no campo, onde impostos crescentes levavam mais e mais famílias à fome. Em busca de empregos e melhores condições de vida, muitos migraram do campo para as cidades, e outros migraram para o extremo norte, na ilha de Hokkaido, onde ainda haviam regiões a ser desbravadas. Entretanto, sendo o Japão um arquipélago superpovoado, as opções logo se escassearam e o governo japonês passou a promover a emigração como alternativa. A primeira emigração oficial ocorreu em 1883, quando japoneses foram à Austrália para trabalhar na pesca de pérolas. A partir de 1885, o fluxo emigratório ganhou importância quando japoneses passaram a ir para o então reino independente do Havaí. Nos anos subsequentes, Canadá, Estados Unidos e Peru também se tornaram destino de milhares de trabalhadores nipônicos. Entre a pobreza em casa e um trabalho em terras estrangeiras - que por mais legalizado que fosse tinha obviamente muitos riscos - muitos japoneses preferiram a segunda opção.
CHEGAM OS JAPONESES
Houve o impacto do encontro de dois povos que se desconheciam. É sabido que popularmente os brasileiros tinham preconceito contra os japoneses - um preconceito todo fundado em mistificação, uma vez que
até a vinda dos imigrantes não havia um convívio de fato entre brasileiros e japoneses.
Contrariando as expectativas negativas de como efetivamente eram os japoneses, J. Amândio Sobral, inspetor de imigração do Estado de São Paulo, redigiu um extenso artigo publicado no jornal Correio Paulistano de 26 de junho de 1908, descrevendo suas impressões sobre os imigrantes nipônicos. Sob efeito deste primeiro impacto, em seu texto, Sobral expressa abertamente que os elogios que faz ao comportamento e à aparência dos japoneses não eram um exagero de sua parte, relatando que o grau de limpeza de “gente de humilde camada social do Japão” era qualificado como “inexcedível”, e que “houve em Santos quem afirmasse que o navio japonês apresentava em sua 3ª classe mais asseio e limpeza que qualquer transatlântico europeu de 1ª classe”. Ao deixarem o trem que os trouxe de Santos à hospedaria de imigrantes em São Paulo, ele observou que “saíram todos dos vagões na maior ordem e, depois de deixarem estes, não se viu no pavimento um só cuspo, uma casca de fruta”. Na hospedaria, os japoneses “têm feito as suas refeições sempre na melhor ordem e, apesar de os últimos a fazerem duas horas depois dos primeiros, sem um grito de gaiatice, um sinal de impaciência ou uma voz de protesto” (...) “surpreendeu a todos o estado de limpeza em que ficou o salão: nem uma ponta de cigarro, nem um cuspo, perfeito contraste com as cuspideiras e pontas de cigarro esmagadas com os pés de outros imigrantes”.
É difícil precisar que impressões os japoneses tiveram ao chegar no Brasil, visto que os imigrantes do Kasato Maru não deixaram registros escritos sobre isso. É certo, entretanto, que os membros da primeira leva de imigrantes não tinham, em princípio, a intenção de se radicar de vez no Brasil. Trazidos pela empresa Teikoku Imin Kaisha (Companhia Imperial de Imigração), que firmou em 1907 contrato com a Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo para alocar 3 mil imigrantes até 1910 como empregados de várias fazendas de café no estado, os japoneses pretendiam ficar por cinco anos - período em que, de acordo com informações dadas pelos agentes de emigração no Japão, daria para ganhar o suficiente para retornar com economias. Os imigrantes pioneiros tinham a certeza de que iriam trabalhar muito, de que iriam ter que enfrentar dificuldades de comunicação devido a diferenças extremas de língua e costumes, mas a expectativa de poder retornar ao Japão com poupanças significativas os motivava a manter o espírito elevado. Mas os imigrantes logo descobririam que seria necessário mais do que a determinação samurai para sobreviver à realidade que os aguardava no Brasil.
Referência: http://www.imigracaojaponesa.com.br/nossahistoria.html